Que tal revermos a visão romanceada que temos em relação à liderança de pessoas?
Há mais de três décadas estamos ouvindo que o RH deve ser estratégico e que os trabalhadores devem ser chamados de talentos. Se observarmos com atenção, as pessoas até eram vistas como talentos nas décadas de 70 e 80, no entanto a partir dai foram sendo consideradas cada vez mais ‘um recurso”. A necessidade de competitividade e sobrevivência das empresas nos impulsionou a isto. Não havia outra saída.
Um ser humano padrão, iniciava sua carreira numa empresa e tinha quase que garantida a sua estabilidade. Os vínculos entre as pessoas e as empresas eram muito fortes. A lealdade e o compromisso eram coisas naturais e não precisavam ser abordados em palestras e cursos, exatamente por serem coisas naturais.
Os ambientes atuais são inseguros para a maioria dos trabalhadores. A competição enfraqueceu os comportamentos de cooperação e eles são o tempo todo incentivadas a competirem entre si. Quem atinge os melhores resultados recebe promoção, bônus e comissões e os outros acumulam frustrações e precisam estar muito preparados para enfrentarem as dores emocionais e se desenvolverem. Por este motivo passamos a ser mais exigentes em relação ao potencial dos líderes.
Quando uma pessoa chegava aos 45 anos se preparava para a aposentadoria. Afinal de contas os filhos já estavam crescidos e estabilizados e era o momento certo de parar. Nos últimos anos passamos a ter uma expectativa maior de vida e precisamos ficar mais tempo nas empresas, no entanto o cenário não nos permite isto. Há uma ideia generalizada de que o mais jovem tende a ser mais competitivo, “moldante” e receptivo às inovações tecnológicas tão presentes, o que nem sempre é verdadeiro.
Criaram-se as trilhas de carreiras e conforme o tempo passa, os trabalhadores vão ocupando novos cargos e quando chegam ao nível máximo, entram numa situação de grande ameaça. Os custos precisam ser baixos e isto exige a exclusão de muitos que tem os salários mais altos.
Antigamente qualquer um fazia qualquer coisa. Hoje não é mais assim. Se há uma avaliação mais precisa do resultado das pessoas, elas precisam ser experts naquilo que fazem. Além do conhecimento técnico é importante ter um emocional aderente que juntos gerem mais energia e eficácia.
“Vamos lá”… “Vamos levantar”… “Vamos nos motivar”… Estas eram retóricas comuns nas atividades de treinamento. E elas davam certas. As pessoas eram mais cooperativas e fraternas e, trabalhavam juntas durante anos e anos. Havia um grande senso de amizade e união e raramente ocorriam demissões em massa. A maioria se sentia em casa e a segunda feira tinha um “cinza” um pouco mais claro.
Os ambientes atuais são inseguros para a maioria dos trabalhadores
Havia compreensão e aceitação em relação ao ritmo das pessoas. Cada um era o que era e não havia a necessidade desenfreada de ninguém mudar ninguém. Passar a perna num amigo para subir de cargo era algo raro. A deslealdade e ingratidão eram incomuns dos dois lados.
Um dos grandes orgulhos era ser homenageado na festa de fim de ano da empresa e o motivo era o “tempo de casa”. Esta é uma prática cada vez menos frequente, pois propagam os “gurus” que você não deve ficar muito tempo num mesmo lugar. A estabilidade vem sendo duramente criticada. Será que eles estão realmente certos? O grande erro é a generalização. Quando deixamos de pensar generalizamos mais.
É importante rever os conceitos dentro de um novo patamar que muitos insistem em não querer ver. Esta falta de percepção prejudica os profissionais de Gestão de Pessoas, os líderes, as empresas e todos os seres humanos que delas fazem parte nas mais diversas funções.
(Leia também: NEUROLIDERANÇA – Uma empresa é feita de cérebros)
É muito difícil compreender com profundidade o ser humano. Estamos falando aqui de cérebros e eles representam o maior desafio para a ciência. São quase 100 bilhões de neurônios. Existem muitas perguntas ainda sem respostas e uma delas é a inteligência da consciência. A coisa vai muito além das palavras e dos sentidos e precisamos buscar informações e, conhecer o ser humano ao máximo. Sem este conhecimento continuaremos a fazer experiências nem sempre tão prósperas.
Vamos agora a algumas sugestões:
1 – As pessoas estão mais fragilizadas. Aqueles que ocupam cargos de liderança precisam dar mais suporte emocional às suas equipes. Encorajamento, orientação e fortalecimento constantes são muito importantes.
2 – Para não fazermos experiências frustrantes com os outros, temos que ter processos mais avançados para selecionar com base nas forças naturais que cada um tem dentro de si. O conhecimento técnico é apenas uma pequena parte, num cenário interativo, desafiador e de alta velocidade.
3 – A formação que as pessoas recebem nas “escolas” é cada vez mais insuficiente e temos que ter um programa de desenvolvimento sistemático e inteligente. Ações esporádicas aqui e acolá não surtem os efeitos desejados. É bom lembrar que o desenvolvimento é lento. Os programas neste sentido precisam ser sistemáticos e perenes. Palestras e eventos rápidos são muito importantes, mas não podemos parar por ai. É preciso ir além.
4 – Temos aqueles que são gestores e aqueles que são líderes. Liderança é algo mais relacional e
complexo. Algumas pessoas tem mais dificuldades para desenvolver esta competência, pois a herança genética, fatores biológicos e sociais são muito importantes neste sentido. Em determinadas situações nós precisamos de pessoas com competências de liderança e em outras de gestão.
5 – Determinadas competências podem ser desenvolvidas com mais facilidade e outras não É muito cruel querer transformar um ser humano naquilo que ele não é em sua essência. Mentoria e Coaching também não fazem milagres. Eles são importantes e ajudam muito no desenvolvimento, mas como qualquer outra técnica, tem seus limites.
6 – A alta competitividade torna a ética frágil demais. Deve-se tomar muito cuidado com discursos efusivos, mas sem essência e verdade. A sociedade já não aguenta mais incoerências e as pessoas se comunicam e discutem mais.
7 – Uma pessoa que ocupa cargo de liderança é alguém cheia de defeitos também. Inspiração e exemplo são valores nem sempre encontrados em quem lidera. Os líderes em geral são mandões, orgulhosos e vaidosos. Eles também têm medo de perderem as suas posições e lutam pela sobrevivência como qualquer outra pessoa. É raro encontrar um líder que também não seja manipulador. É preciso acabar com esta visão romanceada que impuseram a todos nós quando o assunto é liderança.
8 – Muitos livros sobre gestão e liderança não merecem ser editados. Tenha uma visão crítica sobre isto. Um líder é um pensador e um “resolvedor” de problemas e neste caso as técnicas de liderança podem não ser suficientes, especialmente em contextos muito dinâmicos. Liderança não é técnica, gestão sim!
9 – Muitos palestrantes falam coisas totalmente incoerentes e até medíocres. Parte deles fala o que as mentes medianas querem ouvir. Na formação e transformação das pessoas é preciso haver mais Inteligência, questionamento e reflexão. É preciso ir além. Tanto é verdade que até hoje não chegamos nem perto de algumas soluções, porque falta aprofundamento e não conseguimos atuar de forma brilhante naquilo que não conhecemos.
10- Os millenials andam bem nos caminhos programados. Eles precisam “sim” de muita atenção dos mais experientes para que possam enfrentar as situações de improviso. Criticar sempre é mais cômodo. Cada vez teremos menos pessoas para trabalharem nas fábricas, pois nossos jovens vivem em ambientes mais liberais e confortáveis no ambiente familiar e social. O conceito que explica o comportamento das novas gerações também precisa ser questionado. Temos Y que nasceram há 60 anos e temos boomers que acabaram de nascer.
11- Diminua o preconceito em relação a idade dos profissionais. Amanhã você mesmo poderá estar sofrendo por causa disto. CRIE um projeto de valorização da MATURIDADE onde você trabalha. Tem muita gente precisando desesperadamente disto e as empresas ainda precisam de pessoas experientes.
12 – Estamos diante de uma nova realidade que ainda não foi bem processada. Há pouca convergência de interesses entre as aspirações das empresas e das pessoas que nelas trabalham. Isto é um fato, pois os conflitos, as reclamações, as demandas judiciais comprovam esta situação Por outro lado no ambiente em que vivemos, as empresas precisam sobreviver e para que isto possa ser possível as lideranças precisam atuar de forma mais competente e integrada. As ações devem ser construídas com o objetivo de melhorar a competitividade e temos que dar muita importância a seleção e ao desenvolvimento das pessoas. Ações paliativas e simplistas precisam ser substituídas por “coisas” mais sapientes.
Somente quando enxergarmos as coisas como realmente elas são é que conseguiremos achar o caminho.
Enquanto nossa visão sobre a Liderança de Pessoas e negócios for romanceada não conseguiremos ser mais competitivos.