Recentemente fiz uma viagem com meu esposo e atenta às novidades da região, caminhávamos sem destino.
Tínhamos visitado vários lugares incríveis, mas naquele dia uma cena me chamou muito a atenção no meio da calçada, a céu aberto, em uma rua movimentada de Buenos Aires. Uma mulher beirando aos 35/40 anos praticamente deitada em pedaços de madeira arrumados como se fossem uma “cama” e aos seus pés, um homem que parecia ser seu companheiro, dormia.
Junto ao pé dessa “cama” havia uma plaquinha dizendo: “ajuda-me a comer”. Observei
atentamente a placa e automaticamente virei meu rosto em direção à mulher. Sabe o que ela
fazia? Palavras-cruzadas.
Neste momento, como num filme em que pedaços de cenas vão se juntando rapidamente,
vários sentimentos e questionamentos apareceram diante de mim, ideias, frases, julgamentos,
indignação, enfim…
A primeira afirmação em meu diálogo interno foi:
- Se ela está fazendo palavra cruzada é que sabe ler… e que tem inteligência!
- Será que não há meios dela estar em outro lugar?
- Como ela se vê nessa situação de “me ajudem?”
- Será que é interessante para ela essa escolha de vida?
- O que será que houve para ela estar ali? Algum problema grave?
- O que a impediu de seguir seus sonhos? Ela tem sonhos?
Enfim, a lista imensa de porquês inundou a minha mente como se em um segundo eu pudesse ter milhões de pontos de vista desta cena, desta situação, que sei que não é única.
Conversamos no caminho, meu esposo e eu, sobre isso e um pouco mais… mas lógico que são
só hipóteses analisadas sob a ótica da nossa vida e de nossos valores… talvez pudessem parecer julgamentos e logo paramos por aí, porque sabemos que não devemos ter julgamentos sendo que cada um é livre para fazer as suas escolhas.
(Leia também: Faça mais do que te faz feliz!)
Mas continuando nosso passeio, no último dia da viagem, visitamos um local chamado “Jardim
Japonês” e certamente é um daqueles locais que você não tem vontade de ir embora!
Neste local, com uma paz e uma energia magníficas, um grupo de pessoas estava parado frente a uma tenda que vendia lembranças de uma gravura, a qual eu não conhecia: Daruma. É uma espécie de boneco que representa Bodhidharma, um monge da Índia que fundou o Zen Budismo na China. Ele atingiu a “iluminação” budista após meditar por um período de nove anos. Dizem que ele permaneceu sem mover ou fechar os olhos por este tempo.
Mas o interessante é o propósito daquela gravura… ele está sem os olhos pintados, e você
pinta/desenha um olho quando você se propõe a algo… e só completa o outro quando atingir seu objetivo! Ver a gravura com um olho só, te lembra que você tem um caminho a ser percorrido!
Qual foi o momento em que aquela mulher “decidiu” viver na rua a espera de uma comida e uma outra pessoa qualquer que decidiu aperfeiçoar-se?
Neste momento, pensei naquelas pessoas que estavam ali e seus propósitos, nos meus propósitos, nos que deram certo e nos que não deram… novamente aquela enxurrada de pensamentos vieram…
Final do ano, momento propício para ter este tipo de pensamento, pois mesmo que saibamos
que tudo é cíclico e que para alguns pode parecer uma utopia achar que algo vai mudar (os pessimistas/realistas), sempre têm os que de alguma forma olham para trás, aprendem com o que não deu certo no ano que passou e que deseja de verdade, atingir seus objetivos movendo-se MESMO para isso. Novas perspectivas, novas promessas, mudanças de hábitos, enfim, queiramos ou não, fazemos um corte e nos propomos a fazer coisas diferentes no ano que se inicia.
Sentando em um banco para admirar o local, rapidamente criaram-se dois paralelos em minha mente cruzando aquelas duas cenas: a mulher paralisada na rua fazendo palavras-cruzadas e esperando algum trocado para comer “versus” as pessoas que fazem seus propósitos e agem indo atrás de seus objetivos, aqui, agora intensificado pela imagem do Daruma.
A reflexão é: qual a diferença entre elas?
Somos seres humanos e até que se prove o contrário, com o corpo, a inteligência, iguais!
Nossa forma física é a mesma. Neste caso, parto do pressuposto de que todos temos o mesmo
ponto de partida. Talvez uns avancem e outros nem tanto?
O que leva uma pessoa inteligente esperar que sua vida seja conduzida por um desconhecido
qualquer e outra, que analisa o ano que se passou e conscientemente se planeja para
melhorar e conquistar novos aspectos da sua vida?
sabemos que não devemos ter julgamentos sendo que cada um é livre para fazer as suas escolhas
Qual foi o momento em que aquela mulher “decidiu” viver na rua a espera de uma comida e
uma outra pessoa qualquer que decidiu aperfeiçoar-se?
Quantas vezes eu mesma sentei e esperei não tomando uma decisão que era minha, mas que
a transferi para uma outra pessoa? Quantas vezes eu não tive propósito e por isso “tanto fez?”
Será que algum leitor agora também se vê sem rédeas da própria vida?
Precisamos de atuação, determinação e controle para perseguir nosso propósitos e objetivos.
Ter controle do que pode sair errado, refazer a rota e por algumas vezes, começar de novo.
Sentar e fazer “palavras-cruzadas” pode ser uma opção sim. Deixar que o que acontece a nossa volta nos guie, ou melhor, nos empurre… assim como aquele barquinho de papel colocado numa correnteza de chuva que segue sem direção certa… É diferente do barco que possui uma bússola, uma carta de navegação que indica os percalços à frente, permitindo ao condutor tomar as decisões corretas.
Sou muito grata por ter tido a oportunidade de, em duas cenas simples do cotidiano, fazer estas reflexões e quem sabe, promovê-la em outros também.
Assim como o Daruma pode estar com um olho pintado e o outro não, significando que você ainda não atingiu seu objetivo, também pode sentar e fazer palavras-cruzadas colocando uma
placa na sua frente dizendo: alguém direcione a minha vida.
Desejo que você possa fazer as melhores escolhas da sua vida em 2018! Abraço!
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