Nossa vida cotidiana desde a mais tenra infância é recheada de “nãos”. Não pode, não deve, não faça, não corra riscos, não seja ridículo, não se envolva, não mexa… e até não pise, não ultrapasse e tantos outros infinitos nãos.
Muito utilizado no processo educativo especialmente para dar limites “proteger” às crianças o uso indiscriminado do não, com a economia de “SIM” teve um efeito colateral importante.
Durante anos, fiquei intrigada com o fato de ouvir vozes continuamente. Eram vozes internas que se comunicavam comigo nos mais diferentes momentos de minha vida, sempre fazendo recriminação, desqualificação, críticas ou mesmo dando ordens de forma imperativa e contundente: “tá com a cabeça na lua?”, “nem pense em falar que não gostou!”, “Vá até lá e faça isso agora!”, “que burra! Como não lembra a resposta?”, “não vai dar conta!”.
Eu que convivo com essas vozes, desde a infância, fiquei bastante aliviada quando soube que não sou a única a ter essa infeliz companhia.
Conversando com as pessoas que passavam por isso, fui percebendo outro ponto em comum: com raríssimas exceções, tais vozes não faziam elogios ou reconhecimentos positivos. Ao contrário, estavam sempre trazendo uma negativa, uma condenação ou uma ordem. Tanto eu quanto às pessoas com as quais conversei, experimentavam como consequência dessas vozes internas, pressão, angústia, grande gasto de energia, autodesqualificação e culpa.
Ao estudar Análise Transacional compreendi que essas vozes eram os resultados de muitos ‘nãos’ e ordens que recebemos durante nossa primeira infância. Uma vez internalizadas, solidificaram em nós os ‘Mandatos e Injunções’ que são descritas na teoria de Eric Berne como “maldições”. Mesmo que não estejamos mais de fato ouvindo nossos pais repetindo esses nãos, agora por estarem gravados internamente, eles são responsáveis por muitas de nossas respostas no piloto automático.
Saber disso foi libertador! Pois me trouxe novas e importantes perspectivas.
Mudar o foco, utilizado o “SIM” e eliminando o “Não” é um exercício sensacional nas relações humanas de forma geral
Primeiramente percebi que se eu estiver consciente da presença de tais vozes, posso escolher falas diferentes para elas, trocando os mandatos e injunções por ‘permissores’. Por exemplo: trocar o “não ouse se queixar” por “sim, você pode expressar seu descontentamento!”, trocar o “faça isso agora!”, por “sim, você pode fazer as coisas ao seu tempo”. Ou seja, posso utilizar tais vozes ao meu favor, gravando mensagens positivas e protetoras para mim mesma e experimentar trocar o ‘Não’ pelo “SIM”!
Hoje é muito valorizado o ‘Aprender a dizer não’, enfatizando a importância de impor limites e se posicionar, não aceitando tudo o tempo todo. Concordo que dar limites seja bem importante e penso que podemos experimentar outras formas de discordar que não seja somente utilizando tantos “Nãos”. Temos também que aprender a dizer “SIM”! E podemos conscientemente aprender a utilizar o “SIM” como estratégia de negação. Parece complicado? Então vou simplificar… trata-se de uma mudança de foco!
Pense em uma criança sentada na areia da praia, querendo de qualquer jeito tomar banho de mar no final de uma tarde nublada e ventosa, com um princípio de chuva se formando no horizonte. Se os pais respondem: “não, de jeito nenhum!”, algumas reações previsíveis incluem choro, revolta, birra, podendo evoluir para atitudes mais extremas ou então, cansativas explicações dos pais com todos os motivos pelos quais “Não” se deve ir para o mar naquele momento. Tais argumentos não irão reduzir o descontentamento e a contrariedade da criança, que continuará sentindo-se não compreendida, com seu desejo não sendo atendido, podendo concluir que não é amada pelos pais.
(Leia também: Mudança de Hábito, Mudança de Vocabulário)
A outra possibilidade é o “SIM”. – “Claro filha, você poderá tomar banho de mar sim! E eu irei com você! Vamos trazer sua boia e ficar bastante tempo brincando juntas. É muito mais legal tomar banho de mar com sol, não é? Então, como está vindo chuva e já está bem frio, vamos para casa tomar um banho de chuveiro, podemos brincar juntas com seus brinquedos na água quentinha hoje, e amanhã de manhã, com sol, voltamos aqui, pode ser?”.
Viu? Nem um único “Não” foi utilizado e nem por isso, foi feita a vontade da pequena.
Sei que de qualquer forma a criança pode discordar insistir que quer tomar banho de mar agora e sentir-se contrariada, mas existem mais chances de reações positivas e compreensivas com intervenções usando o “SIM”, do que usando o “Não”. Sabe por quê? Porque estamos oferecendo ao outro, possibilidades e alternativas ao invés de uma única negativa.
Mudar o foco, utilizado o “SIM” e eliminando o “Não” é um exercício sensacional nas relações humanas de forma geral. Não somente no convívio com crianças. Trata-se de fato de um exercício que tenho experimentado nos últimos anos e traz fantásticos resultados. Quer experimentar também? O convite é não responder com não! Ao invés disso, experimente os seguintes passos:
- Questione o porquê do pedido ou solicitação para compreender melhor (deixe-me compreender, o que você deseja, o que pretende, porque precisa disso, o que gostaria…)
- Após ter compreendido, confirme seu entendimento com concordância (entendo que você deseja…. concordo que… posso lhe ajudar com certeza… para isso…)
- Faça sugestões que dê possibilidades e alternativas ao outro (para que eu lhe auxilie, que tal… você pode…, o que você acha de… pensei em… o que está a meu alcance é…);
- Por último, finalize com um contrato (então estamos combinando que…) e tranquilize a pessoa, confirmando que ela pode contar com você!
Esses passos contribuem para que a outra pessoa sinta-se ouvida, compreendida, acolhida e auxiliada em suas necessidades, sem motivos para sentir-se contrariada, reativa ou resistente. O ambiente positivo e aberto criado pelo “SIM” oferece novas possibilidades e faz com que as ‘vozes internas’ fiquem sem eco e sem sentido. É uma prática que faz convite à consciência e ao entendimento mútuo, com genuíno respeito e colaboração.
Parafraseando a música do Kid Abelha: “Dizer não também é dizer ‘SIM’!”
Desejo a você uma ótima experiência!!!
Tags:Analise Transacional, Eric Berne