Sábado pela manhã recebi em meu WhatsApp uma mensagem de uma de minhas tantas sobrinhas, questionando se eu teria um tempinho no final de semana para uma conversa. Ela mora em outra cidade e aproveitou sua vinda para compartilhar uma decisão importante que tomara há poucos dias. Marcamos um café em minha casa e entre uma mordida no pão de queijo e um gole de café quentinho ela dividiu sua insatisfação com seu curso de graduação, no qual está no 3º ano.
Comentou o quanto vem sendo difícil continuar indo para a faculdade, pois percebe que não se identifica com os conteúdos e disciplinas do curso, também não se imagina trabalhando com isso no futuro. Percebe que tem sido um grande esforço, que tem lhe arrancado lágrimas diariamente, roubado sua qualidade de sono e sugado suas energias. Assim, por conta desse histórico de mais de um ano, decidiu parar o curso e seguir um novo caminho.
Embora essa corajosa decisão seja muito coerente com seus sentimentos, e bastante compreensível dado o contexto, sua apreensão demonstrou o quanto se sente pressionada a dar continuidade ao curso a fim de levá-lo até o fim. Nessa hora, comentou que pesa o fato de ter sido um custo razoável para a família mantê-la em outra cidade, bem como a preocupação dos pais em relação a reiniciar outra faculdade. Além disso, o sentimento de culpa por não ter feito a escolha correta também tem um peso considerável. E, não bastasse esse desconforto, ainda lida com as expectativas familiares para que ela escolha algum curso que tenha mais aderência às necessidades do mercado, para que alcance uma condição financeira estável.
Curioso o quanto em nenhum momento o direcionamento social considera se ela está ou não feliz. Parece que a felicidade fica em segundo plano, bem atrás do sucesso e reconhecimento financeiro. Dá impressão inclusive que o fator felicidade tampouco seja considerado, pois afinal de contas, se formos profissionais bem formados e competentes, certamente seremos felizes…..
Será? Não estaria invertida essa sequencia?
“Faça mais o que te faz feliz!”, “Precisamos de um primeiro passo e um impulso, para voar alto”.
Tem alguns fatos que não podem ser desconsiderados nesse contexto. Primeiramente fazer a escolha profissional aos 17 anos é uma tarefa desafiadora, uma vez que a idade em que se faz a escolha de um curso superior costuma coincidir com a fase em que o jovem ainda tem pouco conhecimento sobre si. No meio desse turbilhão de emoções, em que você busca saber quem é, o que quer e para onde quer ir, as datas dos vestibulares – e a família – o pressionam a escolher o curso que dará origem à sua vida profissional e adulta. Uma pesquisa feita na Grã-Bretanha revelou que os pais podem atrapalhar os filhos na escolha da profissão. Segundo a pesquisa, 70% dos jovens ouvem os pais na hora de escolher uma carreira, mas se dizem insatisfeitos e pouco informados sobre seu futuro profissional e bastante inseguros.
Veja mais em: http://www.laboratoriodetalentos.com.br/o-poder-dos-pais/77-como-apoiar-o-seu-filho-na-escolha-da-profissao
A diversidade dos cursos é outra dificuldade que o jovem enfrenta na hora de decidir qual carreira seguir. À medida que o número de profissões aumenta, o mercado torna-se cada vez mais exigente e competitivo. Além disso, vivemos ainda em uma cultura que direciona para que a escolha pela profissão seja uma decisão para toda a vida.
Mas pérai….
Quer dizer que a escolha que fiz um dia, precisa ser seguida e que não se podem fazer outras escolhas? Isso não faz sentido!! Considerando que muitas das maiores e mais bem sucedidas empresas tem por hábito praticar o ‘job rotation’, que se configura como uma troca periódica de alocação dos principais líderes em carreiras diferentes, como assim não se pode mudar de rumo?
Para a Análise Transacional, a felicidade acompanha a autonomia, que se refere a fazer escolhas conscientes, conectados com a verdadeira essência e o desejo individual. Assim, conectar-se com seu próprio interesse, com liberdade e estimulado pelo meio para encontrar essa essência é uma forma saudável se realizar, fazendo as próprias escolhas e re-escolhas, independentemente do tempo e do momento.
Hoje ouvi de uma amiga que precisamos de um primeiro passo e um impulso, para voar alto. Agora, certamente precisamos de coragem para dar esse primeiro passo em favor de nós mesmos e fazer mais o que nos faz feliz, sem ter somente o foco em fazer o outro feliz! É importante percebermos que muitas vezes dizer não para o outro é dizer sim para si.
Bom, você pode estar se perguntando qual foi a decisão de minha sobrinha né? Então, felizmente, com apoio dos pais ela fez a escolha de concluir esse semestre no curso que está, pois falta menos de um mês. No próximo semestre, irá escolher disciplinas em outras áreas, para ir degustando aos poucos outras linha de estudos. Paralelo a isso, irá pesquisar mais sobre cursos, universidades e ementas, para dar-se o tempo de decidir com informação e sem pressão. Penso que seja uma sábia decisão! Optar por si mesma, por sua realização profissional e pela sua felicidade.
Para mim ficou uma importante reflexão, quantas vezes faço escolhas ou me mantenho em situações para atender às expectativas dos outros? E você, como você responde a essa pergunta? Então fica o convite…