Há tempos não ouvia essa frase. Hoje pela manhã em um supermercado perto de minha casa tive o desprazer de ouvi-la novamente em uma discussão entre um cliente e o caixa. Confesso que fiquei espantado, principalmente quando um dos participantes da discussão – o cliente –gritando, informava que era um gerente de uma empresa e que se algum subordinado dele tratasse algum cliente de forma mal educada ele haveria de responder pelos seus atos. Imediatamente o caixa do supermercado, extremamente educado, perguntou o que havia dito que teria deixado o cliente tão nervoso. A resposta do cliente foi como uma bomba: Para um bom entendedor meia palavra basta!
Trabalho com comunicação há muitas décadas e ao longo desse período insisto e persisto em mostrar às pessoas que participam dos meus eventos que para uma boa comunicação essa frase é um pecado mortal. Quase imperdoável (outra frase que deixa margem a muitas interpretações).
Lembro-me também de uma outra frase mais antiga ainda: Para quem sabe ler pingo é letra!
Em diversas ocasiões, frases similares a essas aparecem em diálogos, nem sempre produtivos, o que fatalmente prejudicam o bom entendimento, promovendo conflitos totalmente desnecessários. Alguns deles perduram por anos e são de difícil gestão.
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Certa vez passei por uma situação dessas. Confesso, tive muitas dificuldades em conseguir uma boa comunicação com o meu interlocutor.
Estava ministrando um curso sobre formação de consultores e um dos alunos toda vez que havia um debate ou perguntas comunicava-se diretamente comigo de uma forma agressiva e buscando sempre colocar-me em uma situação de constrangimento. Utilizava de ironias e palavras sarcásticas totalmente desnecessárias ao contexto o que me incomodava e aos demais participantes.
Em um intervalo procurei-o reservadamente e perguntei as razões da agressividade, ironias e sarcasmos, indicando e pronunciando claramente as frases que ele pronunciara e solicitando explicações e as razões para aqueles comportamentos. A frase do meu aluno que veio a seguir foi terrível: Você sabe do que estou falando. Não gosto de pessoas como você.
Percebi o quanto nossa comunicação não verbal é importante
Imediatamente, utilizando aquilo que conhecia de comunicação, perguntei o que eu deveria saber e o que ele não gostava nas pessoas como eu. Outra resposta interessante: Ora não se faça de tonto. Pessoas como você sempre disfarçam.
Um novo momento de total perplexidade e refiz a pergunta: A que tipo de pessoas você está se referindo? Ainda não compreendo.
Bastante irritado e elevando o tom de voz o aluno emendou com a frase: Você é gay! Eu não suporto pessoas como você!
No tom de voz que ele falou as poucas pessoas que estavam na sala, ao ouvir, ficaram como eu, espantadas. O que deveria falar para o meu aluno que pudesse faze-lo compreender que ele estava enganado?
Hoje provavelmente você está rindo, eu também. No dia o meu espanto era tão grande que por alguns momentos não achava palavras para expressar o que estava sentindo. Minhas reações estavam lentas. Uma breve revisão das minhas palavras, comportamentos e da minha comunicação não verbal não indicavam quaisquer possibilidades de que eu poderia estar passando algo que poderia ser comparado a uma atitude de constrangimento sexual para o aluno e nem para os demais participantes. Um silêncio estarrecedor e profundo se fez naquele momento e olhando para o aluno vi que ele tinha um leve sorriso no rosto.
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Felizmente, ao invés de utilizar da mesma armadilha a que estava prestes a cair, a agressividade, utilizei de uma forma assertiva; respondi que, através de palavras seria impossível provar que era ou não era aquilo que ele afirmava e que não recordava de nenhuma atitude que permitisse chegar àquela conclusão e sequer havia, caso fosse gay, utilizado de qualquer palavra ou ação que pudesse leva-lo a entender como assédio ou algo similar. No entanto teria que respeitar o que ele estava pensando embora não estivesse de acordo.
Pareceu-me por alguns segundos que ele perdera a sua posição de ataque e passava a entender as minhas palavras de outra forma. Percebendo esse pequeno vacilo perguntei se ele poderia dar algum sinal que o levou a pensar daquela forma. A resposta foi reveladora: Você fica tocando nas pessoas. Só permito que mulheres me toquem. Homens de verdade não ficam se tocando e também tem esse seu “jeitinho”.
Aquilo tirou um peso dos meus ombros e das pessoas que estavam ao redor. Ouvi alguns sorrisos e comentários abafados dos outros participantes.
Que lição podemos tirar desse episódio? Sinceramente são muitas. Entretanto ressalto uma que parece-me a mais relevante. Algumas pessoas sentem-se incomodadas e constrangidas quando são tocadas, mesmo que seja no ombro ou em outras partes do corpo que dificilmente poderemos julgar como assédio sexual ou algo parecido.
Percebi que o modelo de mundo daquela pessoa tinha algo de especial e, sem que eu pudesse saber, as minhas atitudes, comportamentos e comunicação verbal e não verbal despertaram nele comportamentos defensivos ao extremo. Consegui não utilizar em momento algum de agressividade nas minhas palavras e tampouco senti-me submisso ao aluno. Continuei com a minha maneira de ser, tomei cuidado com o que falava para aquele aluno e principalmente, não toquei nele em todo o restante do evento.
Aprendi algo mais naquela tarde. Percebi o quanto nossa comunicação não verbal é importante. Verifiquei que para algumas pessoas o contato pode ser algo que incomoda e constrange muito mais do que imaginamos. Finalmente aprendi que o modelo de mundo de cada pessoa é diferente e que temos que antes de mais nada compreende-lo. Há sempre uma excelente maneira de realizarmos a comunicação.
Você caro leitor deve estar pensando e imaginando uma série de coisas sobre o aluno. Esqueça. Não alucine. Todos nós precisamos compreender antes de concordar ou discordar.
Ia esquecendo da frase inicial, resolvo reescreve-la: “Para um bom comunicador meia palavra não basta!”
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