Vôo aterrisa em Congonhas rumo à minha conexão para BH. Avião para, desligam os motores e mais do que depressa, solto os cintos, pego minha bagagem de mão e me aperto às dezenas de pessoas aglomeradas no corredor para aguardar desconfortavelmente a liberação das portas para o desembarque.
Aí, um pisão no pé ajudou-me a perceber tamanho desconforto e um lampejo de consciência toma conta de mim, fazendo-me questionar “Pra que isso?”. Minha ficha caiu nesse exato momento. Dia lindo de sol, céu azul, um dia inteiro pra chegar a BH, sem qualquer compromisso na agenda, 3 horas de espera para conexão… Correr pra que? Instalei-me novamente no banco, recostei na poltrona e passei a observar a expressão facial e o movimento autômato dos demais que aguardavam de pé, olhando repetidas vezes seus celulares, movimentando-se freneticamente para frente e para trás a fim de identificar quais das portas abriria primeiro, com nítida expressão de impaciência com os cronometrados 7 minutos de espera.
Essa reflexão, mobilizada pelo bendito pisão e tomada de consciência súbita de minha pressa sem motivo, me fez respirar e retornar ao meu propósito de ser mais leve e mais tranquila. Faz alguns anos que decidi me tornar mais presente no aqui e agora, desligando o piloto automático e percebo que essa é para mim uma busca contínua. Ainda me pego impulsionada por uma força invisível que, em meu diálogo interno, repete para mim “anda… vai logo… não demora… que lerda… vamos, vamos…”. Esse diálogo é fruto do que Eric Berne chama de Compulsores.
com pressa podemos até chegar mais rápido, mas a serenidade e a presença nos faz chegar mais longe
Na Analise Transacional, (Leia mais em: Produtividade e Analise Transacional ) compulsores são impulsos internos, programados por mensagens da infância que nos impelem a agir de maneira considerada por nós como socialmente adequada. Com o tempo e com o passar dos anos, nos habituamos a um ou mais compulsores, acionando-os de forma automática. Quando estamos sob ação dos compulsores, acreditamos (mesmo que de forma não consciente) que só seremos aceitos e amados se conseguirmos “Agradar sempre”, “Ser Esforçado”, “Ser Perfeito”, “Ser Forte”, ou como no meu caso “Ser Apressada”.
Sabendo disso e muito disposta a ser dona de meu próprio comportamento, tenho experimentado o Slow Motion e usado como mantra às belas palavras de Amir Sater em sua canção Tocando em Frente “Ando devagar porque já tive pressa…”. Hoje, apesar de ter muito ainda a exercitar, não acredito de verdade, que alguém apressado seja produtivo. Acredito que coisas bem feitas demandam serenidade de corpo e da alma, com foco, atenção e intenção. Quando focamos nossa atenção em um objetivo o fortalecemos. Já a intenção, por sua vez, desencadeia a energia da transformação, e o poder da organização concretiza o que desejamos. Com pressa podemos até chegar mais rápido, mas a serenidade e a presença nos faz chegar mais longe e é isso que quero. Tomei essa decisão no dia que ouvi da facilitadora de minha formação como Analista Transacional que “não é a batida que dita o ritmo, mas sim as pausas”. A partir de minhas experiências na vida, compreendi que essa não é uma metáfora que cabe somente ao âmbito musical.
Carl Honoré, escritor canadense autor do livro “Devagar”, fala que “A velocidade vicia e que estamos viciados nela”. Na nossa cultura imediatista totalmente fast forward, negócios como fast food, fast shop e “fast tudo” viraram moda e atraem cada vez mais os consumidores. Termos como quick também tem tomado frente a muitos negócios: quick massage, quick english course e tem até quick yoga, dá pra acreditar? Nessa realidade influenciada pelo “tempo é dinheiro” ideias como desacelerar soam algo fora do contexto e parece não se adequar à necessidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo.
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Contudo, para garantir a saúde física emocional e relacional é necessário desacelerar! Para Honoré, estamos vivendo na era da raiva, graças à exigência por velocidade. A pressa e a obsessão por economizar tempo nos deixam enfurecidos por qualquer espera e por qualquer um que atrapalhe nosso ritmo, o que pode acontecer no trânsito, nas atividades profissionais, nas relações familiares e até mesmo nas férias ou momentos de lazer. Estamos cada vez mais impacientes, por não podermos perder tempo. Não suportamos pessoas lentas, computadores lentos, elevador que demora os intermináveis 2 minutos, o motorista da frente que reduziu a velocidade porque é de outra cidade e está tentando ler os nomes das ruas, bem como o tempo de espera para desembarcar do avião. Tornamo-nos obsessivos compulsivos pela pressa e pela velocidade.
Desacelerar, para Carl Honoré não equivale a voltar ao passado, tampouco ter um ritmo de tartaruga, lemas ou caracóis. Para ele é necessário ter pressa quando faz sentido ter pressa e tirar o pé do acelerador em outras situações. É de fato desligar o automático e tomar conta conscientemente do próprio tempo e ritmo. Simples assim!
“Acredito que coisas bem feitas demandam serenidade de corpo e da alma, com foco, atenção e intenção.”
Na contramão de toda essa velocidade, Carl fala de dois movimentos internacionais nascidos na Itália o Slow Food e o Città Slow que confirmam a possibilidade de fazer diferente. O primeiro preconiza o oposto do fast food, ou seja desfrutar as refeições de forma calma e tranquila, com receitas passadas de geração em geração, utilizando alimentos locais. O Città Slow, que já está presente em vinte países nos diversos continentes, propõe reduzir o barulho, o transito, o ritmo, tornando as cidades refúgios para o ritmo enlouquecido da vida moderna. Tais movimentos não são contra aos avanços tecnológicos e evolução das cidades, são uma demonstração de que é possível conciliar de forma equilibrada modernidade, tradição e qualidade de vida.
Carl afirma entretanto que “não é preciso morar numa Città Slow para desacelerar”. O slow é um estado de espírito e dá pra viver de forma menos frenética e automática em qualquer lugar.
Uma das formas de exercitar esse desapego à velocidade é um desafio que se chama “ficar sem fazer nada”. Domenico de Masi em seu livro “Ócio Criativo” já falava sobre as benesses de manter-se propositadamente desocupado por algum tempo. Para ele, isso abre espaço para relaxar e a partir disso criar novas possibilidades. Agora, eta coisinha difícil é essa de parar e desconectar, ficar à toa, olhando à paisagem, sem eletrônico nas mãos, sem “ter que nada”. Em meu propósito de aproveitar minha viagem de forma mais slow, estou aqui sentada em um café no aeroporto, observando as pessoas à minha volta e vejo que todos ao meu redor, sem excessão, estão ocupados “fazendo” alguma coisa: lendo jornal, falando no celular, jogando no tablet, ouvindo música no iPod, trabalhando no laptop, lendo. Em meu campo de visão não tem nenhuma pessoa observando essa linda vista das montanhas de Minas com esse por do sol sensacional.
Carl fala que nessa era de milhares de atrações e estímulos disputando nossa atenção, não conseguimos mais ficar a sós com alguém, tampouco sozinhos com nossos pensamentos. Sentimos tédio e até mesmo pânico e procuramos qualquer coisa para fazer o tempo passar… curiosamente, aquele mesmo tempo que julgamos que não temos e que fazemos de tudo para não perder. Não é contraditório?
Agora, me perdoem pois deu vontade de parar de escrever, para fazer nada e desfrutar essa vista maravilhosa que me faz tão bem! Estou me sentindo como Seth (Nicholas Cage) no filme “Cidade dos Anjos” recarregando minhas baterias com esse pôr do sol luminoso e energizador, mentalizando as palavras de Lenine em sua música Paciência:
“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara”
(por do sol Cofins – BH)