Tem a flexibilidade. Tem a maturidade. Tem o jogo de cintura. E tem a incensada resiliência (sobre essa tenho minhas ressalvas, mas falo sobre isso depois).
Tem o aprender com as dificuldades. Tem o enfrentar os próprios medos e limitações e sair mais forte depois. Tudo isso é importante, sem dúvida, mas para mim, uma das emoções mais poderosas, e mais difíceis de gerenciar também, é a indignação. É quando a gente deixa ela chegar, a abraça e escuta o que ela tem a dizer, que as ações mais transformadoras acontecem.
Começando pelo contraponto, vamos à resiliência.
A origem da palavra resiliência vem da física: propriedade que alguns materiais apresentam de retornar à forma original após terem sido tensionados. Mas a psicologia também se apropriou do termo para definir a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.
Até aí tudo bem. Afinal, já dizia um cara inteligente, quem sobrevive não é o mais forte, mas sim aquele que tem maior capacidade de adaptação.
Mas é o uso desta palavra no vocabulário organizacional, que eu quero problematizar. Neste ambiente, suas interpretações dão margem a aplicações, muitas vezes, literais demais. O desejado perfil resiliente em um processo seletivo, por exemplo, pode querer dizer que na posição oferecida o candidato precisará lidar com constante e excessiva pressão, mas voltar sempre ao seu estado original, sem prejuízo. Ou ainda, se levado ao pé da letra, pode significar simplesmente que a pessoa precisará ter a capacidade de se adaptar à má sorte, que pode incluir de um ambiente hostil a lideranças tóxicas. Em casos extremos, o valorizado colaborador resiliente, é aquele que se adapta e colabora para manter tudo exatamente como sempre foi.
Nada pode ser mais contraproducente, mais desmotivador e mais triste do que isso. É o oposto do engajamento. É o fim do propósito.
E quando parece não haver mais esperança, chega a indignação – sentimento de raiva, frustração e desprezo experimentado diante de algo considerado injusto, ofensivo ou incorreto.
A indignação é como um remédio, que se mal administrado, torna-se veneno e ao invés de curar, pode matar.
Nós, que trabalhamos nas áreas de Gente das organizações, vivemos entre legislações e políticas, necessidades dos colaboradores e demandas do negócio. Mas acima de tudo, não podemos perder de vista que existe o certo e o errado, o justo e o injusto. E é a indignação que é capaz de ser o nosso guia. Ela é a sinalização de que algo passou dos limites. É o gatilho da luta.
Na dose certa, a indignação é aquela fagulha que nos move na direção do que buscamos. É a inquietação que faz a gente se mexer na cadeira e não encontrar um jeito confortável de sentar. Que aliás, não nos deixa sentar enquanto acontecem coisas que parecem erradas demais para nos deixar descansar. É aquele inconformismo que nos faz teimar e insistir no que acreditamos.
Mas antes de continuar, uma advertência. A indignação é como um remédio, que se mal administrado, torna-se veneno e ao invés de curar, pode matar. Como dito antes, não é um sentimento fácil de gerenciar.
Além disso, a indignação produtiva deve vir acompanhada da coragem. Indignação reprimida corrói nossa energia e gera sentimento de impotência. É preciso coragem para encarar de frente a nossa indignação, se dedicar a entender o que ela significa e se posicionar. Coragem para se preparar e partir para o bom confronto. Com coragem questionar, provocar e desacomodar os acomodados e os que estão confortavelmente sentados sobre o status quo.
No limite eu diria até que é necessária uma certa falta de medo de ser demitido. Sim, é isso. Com a tranquilidade de quem conhece suas crenças e o seu propósito, mapeou sua indignação e com maturidade é capaz de apresentar uma argumentação consistente, nos resta ter uma atuação coerente e seguir lutando, sem medo. E caso em algum momento o limite imposto por uma demissão se apresente, é apenas sinal de um desalinhamento inconciliável. E bem… já que o fim é certo, que seja um fim pela luta, e não pela apatia.
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