Embora possamos pensar que esta palavra se limita unicamente ao contexto sexual, em uma relação a dois, percebemos que intimidade é bem mais do que isso, visto que muitos casais podem passar anos convivendo, sem ter um momento de intimidade real.
A intimidade tem uma importância e abrangência muito maior e é um dos principais alicerces do relacionamento intra e interpessoal assertivo verdadeiro e sustentável.
Intimidade é o nível mais profundo de relacionamentos entre os indivíduos, fornecendo reconhecimentos incondicionais positivos e uma profunda liberdade que se manifesta na leveza e na maravilha de ser quem se é. Suas características fundamentais são consciência, espontaneidade, autenticidade, empatia e aceitação.
Para a Análise Transacional, “intimidade significa sinceridade espontânea e livre de jogos de uma pessoa consciente”. Refere-se à capacidade do indivíduo, conscientemente estruturar seu tempo em relacionamentos sinceros, no aqui e agora, sem jogos, sem encenar, sem máscaras, sem disfarces.
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Na intimidade não há necessidade de justificativas, onde se responde livremente e diretamente ao que se vê, se ouve e se sente. É mobilizada por uma vinculação e ligação profunda que mobiliza os sentidos, envolvendo proximidade, verdade e um momento de troca única, com liberdade para ser e para se perceber o que se é na essência.
Sem confiança, não pode haver intimidade, sendo que o inverso também é verdade.
Podemos ter intimidade conosco mesmos e intimidade com os outros. Entretanto, dificilmente conseguimos desfrutar de intimidade com os outros, sem que tenhamos essa proximidade conosco, sem nos apropriarmos de quem somos, pois intimidade refere-se à capacidade de vincular o próprio mundo interior com o do outro em simples cumplicidade.
Agora, é possível ter intimidade no ambiente organizacional?
Não só é possível, como é fundamental para viabilizar o diálogo assertivo. Para Michael Slind e Boris Groysberg, em seu artigo “Liderança é Diálogo” (Harvard Business Review Press, 2012), a intimidade é condição sine qua non para o diálogo organizacional, que é uma tendência moderna contrária à abordagem centralizadora da gestão – o famoso “comando e controle” ficou cada vez menos viável nos últimos anos. Com a globalização, novas tecnologias, mudanças na forma como a empresa cria valor e interage com clientes e profissionais da geração Y e Z, reduziu-se drasticamente a eficácia de um modelo de liderança puramente impositivo.
A estrutura do diálogo organizacional é mais parecida com uma conversa íntima entre duas pessoas do que uma série de ordens disparadas o alto para baixo. Ao “falar com o pessoal” ao invés de simplesmente dar ordens, o líder pode manter ou recuperar alguns dos atributos importantes para a competitividade organizacional, como a flexibilidade operacional, alto grau de engajamento dos funcionários, além de forte alinhamento estratégico.
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Para que a intimidade do diálogo ocorra no ambiente organizacional, são necessários alguns importantes requisitos: confiança, proximidade, saber ouvir e empatia.
Sem confiança, não pode haver intimidade, sendo que o inverso também é verdade.
Ninguém vai participar de uma troca sincera de opinião com alguém que pareça ter algo oculto, ou se mostre hostil. Qualquer conversa entre pessoas, só será gratificante e assertivamente relevante, se os envolvidos acreditarem que a pessoa a sua frente realmente é quem parece ser.
Contudo, a partir dos resultados das pesquisas com foco na mensuração da satisfação dos profissionais, vemos que é muito comum nas empresas, os profissionais sentirem dificuldades em depositar fé em seus líderes, que só conquistarão essa confiança se forem próximos, autênticos e diretos.
Saber ouvir é outro atributo importante para gerar confiança. Poucos comportamentos contribuem tanto para a intimidade do diálogo, quanto escutar aquilo que o outro diz.
E, curiosamente, não é necessário ter palavras para poder ouvir. Intimidade também é compartilhar momentos de silêncio. É o olhar compreensivo e as mãos nos ombros do colega que está enfrentando uma dificuldade. É estar atento ao que o outro diz, mesmo sem dizer. Prestar atenção de verdade, conectado com o outro, indica respeito, que por sua vez mobiliza a intimidade.
A proximidade reduz distâncias e possibilita a criação de laços entre as pessoas. Para que a intimidade ocorra, deve haver proximidade tanto no sentido figurado, quanto no sentido literal. É fundamental que o líder minimize a distância institucional, comportamental e, quando possível, também a distância espacial. No entanto, independentemente da proximidade física, o essencial é a proximidade mental ou emocional.
Um líder adepto ao diálogo e a intimidade organizacional desce do trono empresarial e encara o desafio de se comunicar de forma pessoal e transparente com sua equipe, permitindo-se mostrar como ele é com suas virtudes e fragilidades. Essa proximidade, comprovadamente contribui para as mudanças e desenvolvimento das pessoas, pois a confiança e proteção oferecem a segurança de que não seremos julgados e sim orientados e compreendidos.
Empatia é também um dos requisitos para intimidade. É o que permite a um pai olhar no rosto cheio de lágrimas de seu filho que acaba de enterrar seu cachorro que morreu. Colocar seu braço nos ombros do garoto e dizer, olhando-o nos olhos: “É triste ter que enterrar um amigo, eu sei como é…”, convidando o garoto a se afundar em seus braços, desabafando a tristeza. Nesse momento, pela empatia eles tornam-se íntimos, permitindo demonstrar a fragilidade, expressar a proteção, compreensão e aceitação.
Alcançar a aceitação mútua – de si mesmo e de outra pessoa – é outro elemento crucial para intimidade. Aceitação significa admitir e acolher pessoas na sua vida (e acolher a si mesmo exatamente como elas (ou você) são naquele momento. Aceitar significa: “Está bem você ser do jeito que você é”. Aceitar é um “encontro” – pessoa a pessoa – reconhecendo as potencialidades interiores, sem dar ênfase unicamente em comportamentos a serem mudados. É o mesmo que dizer, “não o rejeito por ter problemas e limitações”. Muriel James em seu livro “Um novo eu” lembra que “Aprovação” e aceitação não são sinônimos. Posso não concordar com seus atuais problemas e limitações tanto quanto você, mas ainda assim posso mostrar a aceitação e principalmente apoio para modificar o que você quer mudar em si mesmo.
Saber ouvir é outro atributo importante para gerar confiança
Assim, extraordinariamente, a intimidade a partir da aceitação ao invés de estimular a acomodação, nos mobiliza para a mudança e nos convida ao desenvolvimento, a sermos a cada dia melhores, uma vez que o foco da aceitação reside no foco ao potencial e no apoio e suporte para o desenvolvimento mútuo.
Agora, é importante advertir que intimidade é para os fortes! Para os corajosos que se propõe a entrar em contato consigo mesmo e verdadeiramente ser o que se é.
Pode parecer arriscado, eu sei. Sobretudo no ambiente organizacional, tão profissional, formal, distante. Mas que risco é maior? Demonstrar a vulnerabilidade em relações próximas e reais, ou manter-se em relações superficiais que conduzem a jogose um gasto de energia pago por horas de sono e medicamentos contínuos?
Quanto a mim, como gosto de desafios e já experimentei o outro lado, prefiro arriscar! Devo compartilhar que tenho colhido ótimos resultados, com parcerias sinceras em relações saudáveis que tem me proporcionado muito mais leveza, relacionamentos sólidos e resultados surpreendentes. Que tal experimentar?
Se quiser conhecer mais a respeito, uma leitura bacana é a que indiquei acima: o livro da Muriel James – Um novo “Eu”. Apesar de ser um livro não mais editado, você consegue encontrar em sebos virtuais. Trata-se de uma leitura objetiva, com muitos exercícios práticos, ao mesmo tempo com uma profundidade científica de uma das maiores escritoras sobre Análise Transacional.
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